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ALEC EMPIRE
Digital Hardcore ~ DE


Com a queda do muro de Berlin, o racismo estava em expansão na Alemanha. O governo conservativo mudava as leis de imigração e a mídia ganhava audiência explorando a violência. Ataques a asilos, estrangeiros e a todos os tipos de minorias aconteciam cada vez mais. Muitas pessoas eram mortas, espancadas até a morte por grupos de skinheads, jogadas de trens em movimento por neo-nazis, entre outras barbáries. Os jovens ignoravam o que estava acontecendo e usavam as raves como válvula de escape.

Atari Teenage Riot tomava forma então em 1992, quando Carl Crack (MC da Suíça), Alec (programador, vocal, baixista e guitarrista) e Hanin Elias (vocalista vinda da Síria), decidiram se revoltar contra o Estado alemão e sua fixação pelo neonazismo. Para isso, criaram um selo de industrial, metal e electrónica com sede na Inglaterra chamado Digital Hardcore.

Após lançar inúmeros singles e dois CDs, "Delete Yourself" e "The Future Of War", na Europa e Alemanha, os Atari Teenage Riot fecharam contrato para distribuição de material com a Grand Royal (finado selo dos membros do Beastie Boys) e lançou seu primeiro cd nos EUA: "Burn, Berlin, Burn", trazido para o Brasil pela Rock Machine Records.

Esse trabalho, na realidade, é uma colectânea dos dois álbuns anteriores, que veio para mostrar ao mundo toda a agressividade e experimentação do grupo. O resultado é o puro caos: uma barulheira infernal, ensurdecedora e alucinada, cheia de emoção.

Nine Inch Nails, KMFDM e Wumpscut podem ser citados como referência, mas a banda não se resume apenas ao Techno ou Industrial. Junte a eles o peso de Slayer e você terá os Atari Teenage Riot.




ENTREVISTA ALEC EMPIRE

GARAGEM: Em tempos referiu numa entrevista, que acima de tudo se considera um DJ, uma vez que gosta de testar os seus sons junto de um público, para mais tarde desenvolver um som final. O que mudou desde a queda do muro de Berlim, relativamente à receptividade do público?

AE: O mundo inteiro mudou desde a queda do muro de Berlim. Naquela altura os DJs e produtores partilhavam um sentimento de que fariam parte da invenção da música electrónica , ou pelo menos que elevariam a música a outro nível. Era muito gratificante. Eu penso que nestes últimos anos, a maior parte das técnicas musicais e ideias que tivemos na altura, foram aceites pela maioria do publico. Quando eu falo e trabalho com DJs mais novos eu denoto que eles acima de tudo têm muito respeito pela história que nos fizemos. De certa maneira isto preveniu-os de irem contra as regras. Por outro lado nos tínhamos a vantagem da nova tecnologia, nomeadamente a tecnologia do sampling, que na altura era algo inovador que convidava toda a gente a experimentar. Desde aí as coisas têm melhorado em termos de tamanho e capacidade de armazenamento, mas a ideia embrionária manteve-se a mesma.
Uma vez que eu cresci numa época de mudança, estou sempre à procura de algo diferente, ao contrario de trabalhar sob as regras. Se eu tivesse que descrever esta década então teria que usar como exemplo as redes sociais, que explicam quase tudo que se esta a passar. A maior parte das pessoas têm medo de ficar sozinhas, ou de serem rejeitadas pela maioria. Mas ser popular vem com um grande preço. E se uma pessoa quiser introduzir novas ideias e novas maneiras de pensar, especialmente na musica, então temos que correr o risco de confrontar a audiência. Sem isso a musica estagna.

G: O que está em jogo quando toca música com mensagens politicas?

AE: Tudo. A minha carreira, o apoio dos meus fãs, a minha vida. Soa dramático, mas é a verdade. A lista daquilo que uma pessoa não pode fazer é longa. Mas uma pessoa mantém a sua integridade, e a longo prazo acaba por pagar, permanecendo mais tempo no cenário musical. Eu recebo ameaças a todo o tempo. A maioria eu ignoro, mas algumas são mesmo sérias. A nossa sociedade está à beira de uma mudança. A maneira como os nossos pais viveram no ultimo século já não faz sentido. Temos hoje em dia a oportunidade de definir o mundo no qual queremos viver. E algumas pessoas não gostam.

G: Os ATR eram um banda politica, o teu projecto a solo é mais pessoal, e Bass Terror? O que o inspirou para criar Bass Terror?

AE: A Bass Terror era altamente virada para a politica quando começou. Surgiu para reagir contra o movimento Neo-Nazi na Alemanha. Desde então o problema tem aumentado. Eu vejo os neonazis como o maior problema que temos na nossa sociedade. A maior parte da nova geração não tem conhecimento desta história e de como esta é perigosa para todos nos. O fascismo esta lentamente a entrar na nossa sociedade. Apesar de aparentar estar diferente, esta mais perigoso que nunca. Eu sempre vi a cultura do "soundsystem" com as suas raízes na Jamaica dos anos 60 como algo que servia para unir as pessoas localmente. Temos visto corporações a tomar medidas para destruir cenas musicais locais em todo o mundo, para poderem maximizar os seus lucros. Isto já não se trata de entretenimento. Isto é Guerra. Se nos perdermos esta batalha, então iremos enfrentar uma situação na qual as pessoas não poderão exprimir a sua voz. Atrás da cortina estamos a ser confrontados com uma estratégia "Walmart", que é difícil de explicar aos fãs, uma vez que não é muito visível., e é bastante complexa. Nos últimos dois anos eu apercebi-me, ainda mais, do quanto é importante criar e apoiar apoios para os músicos underground, promotores e fãs.

G: Acha que também é possível passar uma mensagem na musica electrónica, nomeadamente na musica jungle?

A musica em si já carrega uma mensagem: Não se conformem! Determinem a vossa própria vida. Uma das partes mais importantes da cultura de DJ é, e eu refiro-me à verdadeira cultura DJ, é que os DJs têm acesso a musica já gravada e mudam-na à sua maneira. Os mixes dos DJs estão sempre a mudar, novas ideias são assim concebidas. O crescimento do indie rock nestes últimos anos afastou a ideia antiga do que era um DJ, um "entertainer", escravo da industria musical. Basicamente o DJ recebe promos, incluindo vários remixes para promover o "produto" num certo espaço, a um determinado publico, e o nível de criatividade é menos que zero. Isto mata a arte de DJing. Para mim um DJ é o elo que liga um musico, a um produtor a uma audiência. È mais do que uma arte. O DJ reflecte o que esta a acontecer no momento. Ele ou ela podem manipular o som e inseri-lo num contexto diferente. E esta é a base do pensamento independente. E isto é politico.
G: o que é que o atrai no drum and bass/jungle?

AE: Eu adoro o tempo, a maneira como o ritmo é usado e desenvolvido. Eu adoro o impacto das batidas. Idealmente a musica pode mesmo mudar a maneira das pessoas pensar. A maneira como certas ideias são compostas num tema, e mais tarde modificadas. Esta é a parte que mais gosto. Também gosto do facto deste género de musica ser talvez o único género que muda os samples radicalmente. Não se encontra isso em mais nenhum género. A principal prioridade deste género é criar um impacto físico no ouvinte. Para mim, ainda é algo por responder o porque do hip hop ter abdicado desta parte. Houve uma altura que parecia que o drum and bass também iria cometer o mesmo erro, mas de à um ano para cá, que me apercebi que não, porque tem havido muito bons lançamentos.

G: o que espera de um regresso ao jungle? Como acha que esta geração ira responder a esse regresso?

AE: Eu não vejo isto como um regresso. Nos iremos voltar atrás no tempo, recolher o que é bom, e criar algo de novo. Se nos tentarmos recriar algo que jápassou, então iremos falhar. E não podemos arriscar falhar. Não agora.

G: O que acha do cenário musical presente? Como ira ser no futuro? Que sons podemos esperar ser reinventados?

AE: Iremos ver a industria musical a colidir. Isto não acontece de um dia para o outro, é um processo e já começou à já alguns anos. Estamos a aproximar-nos de uma grande mudança no que diz respeito à musica. O velho século esta a terminar, e estamos a entrar numa nova época, após alguns anos perdidos num conservadorismo musical. Os tops já não interessam, a imprensa tradicional perdeu o seu poder, bem como a rádio. Esta cada vez mais difícil chegar a um consenso musical na nossa sociedade. E eu penso que não necessitamos mais disso. A musica pop esta a acabar. Esta é uma consequência da globalização. Uma boa consequência.

G: Em que aspecto considera a violência necessária? Que mensagem queria passar, quando se cortou em palco com uma gilette?

AE: O episodio da gilete deveu-se apenas pelo facto de eu estar deprimido na altura. Estou contente de que essa fase já passou e que me posso concentrar na musica outra vez. Para mim a violência faz parte de quem somos. Ninguém gosta de violência. E quando somos forçados a usa-la, deveremos ter a certeza que a temos controlada. A policia na Grécia que assassinou o jovem ultrapassou os limites, e ira pagar muito caro. Nos anos 60, na Alemanha, o Exercito Vermelho participou em algo semelhante. As autoridades têm conseguido manter o seu poder, apenas porque ameaçam a liberdade das pessoas. De onde eu venho, nos temos autoridade porque as pessoas nos respeitam, e não porque temos uma arma apontada às suas cabeças.

G: Também compõe bandas sonoras. Como é que uma pessoa que no passado despediu-se da editora Phonogram para ter controlo criativo, consegue trabalhar sob a visão de um realizador?

AE: Eu apenas trabalho com realizadores que me permitem uma certa liberdade. Para mim cada projecto tem que ser desafiante e interessante. Eu sempre gostei de trabalhar com outras pessoas, desde que haja respeito mutuo. As editoras de renome não respeitam os artistas, mas sim aproveitam-se deles. Isto também acontece no mundo do cinema, mas eu tento evitar esse género de filmes. Todas aquelas bandas sonoras magnificas, foram produzidas de uma maneira única. "Taxi Driver" e "Blade Runner" são óptimos exemplos. Se um realizador conseguir juntar uma boa banda sonoro ao seu filme, toda a gente sai a ganhar. Não há certo ou errado, muitos filmes podem ser interpretados de maneiras diferentes pelo compositor. Por isso é sempre muito intenso. Mas eu gosto disto. Estou sou muito mais receptivo a criticas e mudanças do que as pessoas poderão pensar. Eu gosto de ver as coisas, filmes, de vários ângulos. Os realizadores com quem tenho trabalhado têm apreciado essa minha faceta.

G: O que podemos esperar do seu DJ-set no ano novo? Os fãs de ATR terão a oportunidade de ouvir sons dos Atari?
AE: Sim! Irá ser um set muito espontâneo. Estou ansioso pelo evento. Eu acho óptimo que um evento com este line-up aconteça. Tenho muitas musicas nunca antes lançadas na minha mala.


G: Iremos ouvir Alec no microfone?

AE: Se me derem um, irei usá-lo ;)

ALEC EMPIRE INTERVIEW

GARAGEM: You stated before that above all you are a DJ and that you like to try out on a crowd and later on develop your sounds. What has changed since the falling of the Berlin?s wall, regarding the crowd?s response?

AE: Since the Berlin Wall fell the whole world has changed. Back then there was a feeling amongst DJs and producers that we were in the middle of inventing electronic music, or pushing its boundaries to new levels. It was very exciting. I think in the recent years, most music techniques and ideas that we came up with back then, have been accepted by most people. When I talk and work with younger DJs I see mostly that they have too much respect for the history of what we do. In a way this prevents them from going against the rules. On the other side we had the advantage of new technologies, sampling technology for example was quite new and invited everyone to experiment. Since then things have improved in terms of size and storage capacity, but the basic idea has stayed the same. Because I grew up with change I am always looking for a different approach rather than working along the accepted rules. If I had to describe this decade then I'd use social networks as the example which would explain almost everything which is going on. Most people fear being alone or being rejected by the majority. But being popular comes at a high price. And if you want to forward new ideas and new thinking, especially in music, then you have to take the risk of confronting and alienating your audience. Without that... music stagnates.

G: What is at stake when you play political music?

AE: Everything. My career, the support from my fans, my life. It sounds dramatic, but it's true. The list of things you cannot do is long. But you keep your integrity. Which gives you a longer life in the music scene. I get threats all the time. Most I ignore, but some are serious. Our society is on the brink of change. Most ways how our parents used to live last century don't make sense anymore. We have the chance now to define the world that we want to live in. And some people don't like that.

G: ATR was politically driven; your solo Project is more on a personal basis, and bass terror? What inspired you to create bass terror?

AE: Bass Terror was highly politically charged when it started. It was a reaction to the rising neo nazi movement in Germany. Since then the problem has grown. I see the neonazis as the biggest problem that we have in society. A lot of young people don't have the knowledge of this history and how dangerous it is for everyone of us. Fascism is slowly sneeking back into our society. It looks different now, but is even more dangerous than ever before.
I always saw the soundsystem culture with its roots in 60ties Jamaica as a way to unite people locally. We have seen corporations make moves to destroy local music scenes everywhere in order to maximize profits. This is not about entertainment and fun anylonger. This is war. If we lose this battle, then we'll face a situation in which people cannot express themselves anymore. Behind the curtain we are confronted with a Walmart strategy which is hard to explain and make visible to music fans, because it is complex. In the last 2 years I have realized even more how important it is to create and support a network of underground musicians, promoters and fans.

G: Do you think its also possible to send out a message through electronic music, namely jungle?

AE: The music itself already carries the message: Do not go conform! Determine your own life. One of the most important parts of DJ culture is , and I mean true DJ culture here, it's that DJs lay their hands on pre-recorded material and change it and make it fit to their needs. DJ mixes keep changing, new music ideas are invented this way.
The rise of indie rock over the past years pushed the old fashioned idea of the DJ again, the music entertainer who is slaved to the industry. Basically Dj gets promo from the industry, including various remixes to promote the "product" to the club crowd, and the level of creativity is less than zero. This kills DJing. To me a DJ is the missing link between musician, music producer and audience. It is more than just a craft. The DJ can reflect what is going on in that moment in time. He or she can manipulate sound material and put it into new context. And this is the basis for independent thinking. And this is political.
G: What is it about drum and bass/jungle that appeals to you?

AE: I love the tempo, the way rhythm is used and developed. I love the impact of the beats. Ideally the music can really push people's minds forward. The way certain musical ideas are set up as a theme, and then morphed and changed. This is the most fun about it. I also like that this music style is perhaps the only one which changes samples that radically. You don't really find that in any other genre. The main priority about this music is to have a physical impact on the listener. To me it is still one of the biggest questions, why Hip Hop has given up on that part. For a while it looked as Drum'n'Bass would make the same mistake, but since about 1 year I am not worried anymore, because there have been too many good records coming.

G: What do you expect from a return to the jungle? How do you think this generation will respond to it?

AE: I don't see it as a return. We will go back in time , take the best of it, and create something new. If we just try to recreate something which is already passed, then we'll fail. And we can't afford that. Not right now.

G: What do you think of the current music scene? How is it going to shape in the future? What sounds can we expect to be reinvented?

AE: We will see the music industry collapse, this doesn't happen from one day to the next, it is a process and it has started years ago. We are approaching the biggest change in music. The old century is ending, and we are stepping into the new one after a few lost years of conservative, backwards thinking music. The charts don't matter anymore, the traditional music press has lost its power, radio as well. It is getting harder to find a musical consense in society. And I think we don't need that anymore. Pop music is ending. This is one consequence of globalization. A good one.

G: In what level do you think violence is needed? What message do you want to put out when you, for instance, cut yourself on stage with a razor?

AE:The razor thing was really down to me being seriously depressed at the time. I am glad that I am through that and can focus on the music again. To me violence is a part of who we are. Nobody likes violence. And when you are forced into using it, you must make sure that you control it. The police in Greece who shot the demonstrator has crossed a line, which will have very expensive consequences. In Germany in the 60ties the Red Army Fraction was a result of a similar shooting. The authorities have only managed to keep their power because they threatened people's freedoms. From where I come from you have authority because people respect you and not because you hold a gun to their heads.

G: You also do soundtracks. How is it for a person that once quit Phonogram in order to have creative freedom,, to be under someone else?s vision?

AE: I would only work with directors who allow me a certain freedom. To me each project has to be challenging and exciting. I always loved working with other people if we respect one another. Major record labels don't respect the artists, they exploit them. This exists in the film world as well, but I try to avoid these kind of films. Every amazing soundtrack to a film was created with a unique approach. Taxi Driver and Blade Runner are tow very good examples of that. If a film director can bring a quality soundtrack to the film, everybody wins. There is no right or wrong, many films could be interpreted in many different ways by the composer. So it's always intense. But I like that. I am much more open to criticism and change than people think. I like looking at things, events and film scenes from many angles. The directors I worked with so far really appreciated that side of me.

G: What can we expect from your DJ-set in NYE? Will ATR fans have a chance to get a glimpse of the ATR sound?
AE: Oh yes... I will approach the set very spontaneously. I am looking forward to the event. I think it is great that an event with this line up is happening. I have a lot of unreleased tracks with me.


G: Will we hear Alec on the mic?

AE: Give me a mic and I'll use it...;)







 


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